Ele escrevia enquanto a chuva – tão fina que quase nem se via –, do lado de fora, caia. O que ele estava escrevendo, ninguém sabia; estava, contudo, concentrado há horas. Com as costas curvas, cotovelos apoiados sobre a mesa, tinha aspecto de cansado, mesmo assim, não largava a pena que estava em sua mão direita. As velas iluminavam – já quase se a pagando – as inúmeras folhas amareladas; o castiçal, prateado, estava coberto por uma grossa e espeça camada do que horas atrás fora uma vela. Um vento passou pela sala – sem ninguém saber por onde ele havia entrado – apagou as velas. A escuridão que perdurou tomou conta do lugar; todos foram absorvidos pelo breu e nada era possível se enxergar. De repente, o vento sobrou - desta vez mais forte – as velas, misteriosamente, reacenderam. O escritor, agora, caído sobre a mesa junto à macha escura do tinteiro derramado não exercia nenhum movimento, nem mesmo respirava. As páginas escritas desapareceram. O que aconteceu na sala ninguém soube...